07
Jan
10

poema sobre tela

não era bem terra, porque sabia um pouco a céu,

nem bem braços se eram estrofes.

não eras bem tu, porque me sabias a vento,

nem silêncio, nem dilúvio,

e mesmo quando inerte a tua mão não era bem a tua,

e depois a minha já não era só minha.

e aquela terra era já cama,

e o vento era já murmúrio.

(pintura de Cátia Mourão)

05
Jan
10

Fake Empire

ele era assim pequenino, risonho, tinha, como se costuma dizer um sorriso de lagarto, nunca se diz? pouco importa, na verdade ele tinha tudo o que queria, assim um império grande, grande dentro do mar, e ele imperador, tinha a sua sabedoria toda nesse sorriso, pequeno como ele. um dia abriu a mão e dela uma borboleta azul despertou, rodeou-se de grandes pajens brancos disfarçados de margaridas, e pousou no seu ombro. ele chamou decidido, como um bom imperador chama, todas as gaivotas e dos peixes do seu império nenhum faltou. abriu os seus olhos risonhos e azuis, subiu ao seu trono de areia, e adormeceu.

(roadtrip 16)

05
Jan
10

Waiting

acho que vou fugir para perto do silêncio, lá não te encontrarei, lá onde toda a doce música é uma jornada cega, onde tu nada podes, e a tua voz nada diz, e os meus braços descansam num pesado sossego, recuperando as cores pontiagudas dos dias malditos em que estranhava não te ter encontrado ainda.

04
Jan
10

what can i do

ela rastejou o meu nome em toda a sua dimensão,

enquanto se aproximava dos meus pés,

submissa,

chorando toda a sua raiva,

subiu as minhas pernas como se eu fora uma árvore e aconchegou-se nos meus braços

como se eu a pudesse salvar

03
Jan
10

como te podia abandonar

como te podia abandonar, se este era o momento escolhido, e se partias ou se chegavas o mundo já não sabia, e no entanto tudo era claro, como te ia abandonar, sabendo que eu tremia, não por existir, nem por este frio, desencontrado o meu corpo com a sua própria existência, sabendo que os teus olhos me sabiam a mar, mesmo se não sabia se eles chegavam ou se partiam, e como te abandonar assim, se os meus passos se tornavam febris e lentos não compreendendo o que quer dizer contraditório num mesmo esgar doravante alegre ainda agora triste, e um silêncio tão suplicante que pensei que partias quando chegavas

02
Jan
10

The Master and His Emissary| Book review | Books | The Guardian

02
Jan
10

BBC News – Stephen Fry quits the web to write his autobiography

01
Jan
10

vê o meu coração

Ouço Dante a falar: vê o meu coração. Pouso o copo. Da janela descubro o frio. Do negro da noite as luzes dos teus olhos. O vento contrasta com a calma. Deixo cair uma lágrima para aquecer a face, agora fria. Descubro uma estrada. Parece-me o teu corpo. Parece-me que já o percorri. Descubro que o sentido da chuva é desejar-te. Como se ela pudesse cair uma vez mais no teu regaço. Fecho os olhos. As mãos destemperadas sossegam-se no parapeito. Como uma história que não acaba.

31
Dez
09

BOM ANO DE 2010!

Para você ganhar belíssimo Ano Novo

cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

(Receita de ano novo – Carlos Drummond de Andrade)

29
Dez
09

chover

soubesse eu que chover era este pequeno desencontro entre os meus olhos e os teus, e que nada ruiria, que mesmo o teu corpo de costas seria um corpo nu saboreando aos poucos os meus sonhos

e nunca pediria o sol.




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