Visitação – Ruy Cinatti

2010 Fevereiro 5
por João Emanuel Diogo

Entraste na minha vida.

Eu entrei em tua casa.

Esperava encontrar um homem.

Era um deus que me aguardava.

Invoquei-o, supliquei-te

no que em mim há de mais fundo:

Eu peço-te, senhor deus…

sê homem,… sê deste mundo!

Pedi-lhe depois perdão

por aquilo que não digo.

Não te julguei ilusão,

destas que trago comigo.

Fui breve na oração,

como fora no sentido.

Sobracei pastas de fala

e saí como um perdido.

O homem a quem eu dava

as chaves da minha vida,

troçava de mim, trocava

o meu ser pelo de um amigo.

Medito na confusão

que me traz tão dividido.

O deus a quem adorava

era um farrapo vestido.

Farrapo, quer dizer homem

simulado, indefinido.

Eu mato o deus que me engana,

mas quero-te… meu amigo!

Bartoon

2010 Fevereiro 4
por João Emanuel Diogo

Viagens

2010 Fevereiro 2
por João Emanuel Diogo

Às vezes dizemos sol como quem diz despedida, e comboio como até já. Às vezes mordemos os lábios como quem respira, e olhamos como quem já nada quer. Às vezes viajamos como quem dorme, e chegamos vestidos de rosas como quem nasce.

Para um amigo – António Ramos Rosa

2010 Fevereiro 2
por João Emanuel Diogo

Para um amigo tenho sempre um relógio
esquecido em qualquer fundo de algibeira.
Mas esse relógio não marca o tempo inútil.
São restos de tabaco e de ternura rápida.
É um arco-íris de sombra, quente e trémulo.
É um copo de vinho com o meu sangue e o sol.
António Ramos Rosa

Início – Maria Teresa Horta

2010 Fevereiro 2
por João Emanuel Diogo

Quando menos
se aguarda

Vence-se da flor
o vício

O fogo da palavra

E desobedecendo
tudo torna ao início.

Maria Teresa Horta

Under fire

2010 Janeiro 31
por João Emanuel Diogo

Encontro-me contigo nesta ruga, num espelho em que já não me desejo. Perco o tempo a mexer os lábios. Como um mantra dizendo aos poucos que a noite acabou. Mesmo se já não durmo. Mesmo se o cinzento do tempo é também o dos meus olhos.
Levo a mão ao cabelo rasgando a sua determinada configuração. Espero um momento, mas nem sorrio. As mãos agora molhadas. Agora a distância. Agora o bater pesado do coração. Agora o dia.

Decepção à regra – João Luís Barreto Guimarães

2010 Janeiro 29
por João Emanuel Diogo

Sentar-me e
ver os outros passar é o
meu exercício favorito. Entretém.
Não esgota.
É gratuito. Neste meu jogo-do-não
são os outros que passam
(é aos outros que reservo a tarefa
de passar). Lavo daí os pés.
Escrevo de dentro da vida.
Pode até parecer que assim não
chego a lugar algum mas também quem
é que quer ir
ao sítio dos outros?
João Luís Barreto Guimarães

De novo o silêncio – Jorge de Sousa Braga

2010 Janeiro 29
por João Emanuel Diogo

«O silêncio é como se fosse água. Daquela água pura da montanha que se bebe directamente pelo coração».

Jorge de Sousa Braga

Vicio de ti

2010 Janeiro 29
por João Emanuel Diogo

Sabes, Parece que a solidao se condensa no fim das tardes perdidas, nas paragens dos autocarros onde perdidos homens e mulheres regressam de um universo que nao é o seu, e o frio consegue-se apalpar, tanto quanto os corpos aparecem rodeados de mar e as maos, sim as maos, secas apesar da chuva, secas apesar de mim. Domino com a fraqueza dos assim perdidos as tuas memorias, até o teu andar como se o mundo existisse numa dimensao paralela. Percorrem-se as ruas nos olhares que nao nos fitam. Conseguimos ate cheirar toda a angustia. Todo o desvelo em que se encontrarao na noite dos seus dias, buscando um sentido, uma verdadeira percepcao da alma (quem disse que ela nao existe nesses passeios?). sabes, parece que a solidao se condensa assim neste autocarro onde morrem todas as paixoes e o universo.

outros tempos

2010 Janeiro 27
por João Emanuel Diogo

um dia encontrei-te por acaso num vão de escada, atrás de uma caixa de sapatos. tinhas o formato de uma fotografia.