Entraste na minha vida.
Eu entrei em tua casa.
Esperava encontrar um homem.
Era um deus que me aguardava.
Invoquei-o, supliquei-te
no que em mim há de mais fundo:
Eu peço-te, senhor deus…
sê homem,… sê deste mundo!
Pedi-lhe depois perdão
por aquilo que não digo.
Não te julguei ilusão,
destas que trago comigo.
Fui breve na oração,
como fora no sentido.
Sobracei pastas de fala
e saí como um perdido.
O homem a quem eu dava
as chaves da minha vida,
troçava de mim, trocava
o meu ser pelo de um amigo.
Medito na confusão
que me traz tão dividido.
O deus a quem adorava
era um farrapo vestido.
Farrapo, quer dizer homem
simulado, indefinido.
Eu mato o deus que me engana,
mas quero-te… meu amigo!
Para um amigo tenho sempre um relógio
esquecido em qualquer fundo de algibeira.
Mas esse relógio não marca o tempo inútil.
São restos de tabaco e de ternura rápida.
É um arco-íris de sombra, quente e trémulo.
É um copo de vinho com o meu sangue e o sol.
António Ramos Rosa
Quando menos
se aguarda
Vence-se da flor
o vício
O fogo da palavra
E desobedecendo
tudo torna ao início.
Maria Teresa Horta
Encontro-me contigo nesta ruga, num espelho em que já não me desejo. Perco o tempo a mexer os lábios. Como um mantra dizendo aos poucos que a noite acabou. Mesmo se já não durmo. Mesmo se o cinzento do tempo é também o dos meus olhos.
Levo a mão ao cabelo rasgando a sua determinada configuração. Espero um momento, mas nem sorrio. As mãos agora molhadas. Agora a distância. Agora o bater pesado do coração. Agora o dia.
Sentar-me e
ver os outros passar é o
meu exercício favorito. Entretém.
Não esgota.
É gratuito. Neste meu jogo-do-não
são os outros que passam
(é aos outros que reservo a tarefa
de passar). Lavo daí os pés.
Escrevo de dentro da vida.
Pode até parecer que assim não
chego a lugar algum mas também quem
é que quer ir
ao sítio dos outros?
João Luís Barreto Guimarães
«O silêncio é como se fosse água. Daquela água pura da montanha que se bebe directamente pelo coração».
Jorge de Sousa Braga
Sabes, Parece que a solidao se condensa no fim das tardes perdidas, nas paragens dos autocarros onde perdidos homens e mulheres regressam de um universo que nao é o seu, e o frio consegue-se apalpar, tanto quanto os corpos aparecem rodeados de mar e as maos, sim as maos, secas apesar da chuva, secas apesar de mim. Domino com a fraqueza dos assim perdidos as tuas memorias, até o teu andar como se o mundo existisse numa dimensao paralela. Percorrem-se as ruas nos olhares que nao nos fitam. Conseguimos ate cheirar toda a angustia. Todo o desvelo em que se encontrarao na noite dos seus dias, buscando um sentido, uma verdadeira percepcao da alma (quem disse que ela nao existe nesses passeios?). sabes, parece que a solidao se condensa assim neste autocarro onde morrem todas as paixoes e o universo.
um dia encontrei-te por acaso num vão de escada, atrás de uma caixa de sapatos. tinhas o formato de uma fotografia.





