encontrei o teu sorriso, num ambiente escuro. parecia brilhante. enquanto o teu corpo se apoiava no meu dizendo «que bom encontrar-te». encontrei o teu sorriso, numa madrugada qualquer, entre duas rodadas e uma vida, dizendo, gritando diria melhor, que a música estava alta, bem alta, gritando «que bom encontrar-te». encontrei o teu sorriso, adormecido num sofá estrangeiro, de uma marca branca, para contrastar com o teu corpo, moreno, sublinhando todas as formas de uma noite serena, e eu, sorridente, sussurrei baixinho, «que bom encontrar-te».
Arquivo de Julho, 2008
que bom encontrar-te
Esta repentina fome
Há frase que têm beleza por si. Não há ciência. Apenas estética. Não tratamos de sociologia, que as fomes sobrevoam os números, sublinham os papéis escritos de palavras redondas, redondas como o zero. Zero e adiante que o mais que temos a dizer é que a beleza se inscreve no pequeno buraco entre duas letras, como dois amigos conversando sobre o que os faz feliz. Há belez nas palavras para lá de toda a ilusão: é um caminho que se faz sem regresso: quando lá se chega, chegou-se ao fim.
citações (Pedro Rolo Duarte)
«Na passagem do 25º aniversário, a revista francesa «Le Point» vem lembrar-nos uma contradição terrível: no mesmo mundo em que a comunicação é a chave-mestra dos dias, as palavras valem menos do que os números. Vivemos cercados de números – que nos limitam, nos asfixiam, nos condicionam, e no limite nos lixam…
(…)
As palavras e os argumentos não fazem falta nenhuma: se tivermos números, eles explicam tudo.» Pedro Rolo Duarte, Visão, 1997, reproduzido aqui.
Coimbra, Portugal, é assim. E assim continuará a ser.
you know how i feel
minha senhora, o seu cabelo branco está cada vez mais bonito, não sabe? faz tomar as minhas mãos de um estranho formigueiro, minha senhora, nunca elas tiveram tal sobressalto, nesta vida dura, como sabe, já lhe contei, minha boa senhora, e no entanto é como se o seu cabelo, bonito minha querida senhora, branco, como nunca vi, é esse cabelo suave, como uma nuvem que me faz voar, senhora. já nada temo, pois nele adormecerei, minha senhora. o seu cabelo branco está cada vez mais bonito.
escolhes os sapatos a usar
escolhes a carta a lançar, o segredo a dizer, até os sapatos a usar. escolhes a dor que a tua mão sente, o silêncio que atravessas pela chuva, até os sapatos a usar. escolhes o livro que nunca irás ler, aquele que temes ler, e aquele que te vai ler, escolhes a música maior, aquela que dói ossos dentro, até escolhes os sapatos a usar. escolhes quem vai e quem vem, quem descobres e que te suplica, escolhes o direito e o avesso do mundo e mandas publicá-lo em forma de artigo extenso, escolhes até os sapatos a usar. escolhes que vento hoje vai soprar, por que ruas ele vai andar, escolhes o caminho que hoje os homens vão construir, para te levar, só para te levar à ilha que sonhas, escolhes até os sapatos a usar. escolhes as cordas em que os violinos vão tocar, os acordes e os dedos, escolhes o burbulhar de toda verdade, escondida atrás de um seixo vermelhor, escolhes até os sapatos a usar. escolhes por escolher um café refinado para tomar, e a companhia que não te vai acompanhar, escolhes o olhar vago que sereno atravessam as nuvens, escolhes até os sapatos a usar. escolhes estar aqui, escolhes dizer «amo-te», escolhes até andar descalça.
* é a única coisa que me sugere esta notícia

