Na sequência do “caso Borges” (para quem não saiba o que é pode ver aqui), Osvaldo Silvestre publicou o seguinte post:
Queria só deixar dois ou três comentários que logo me assaltaram:
Que «os editores e livreiros optem pelos 1000 clientes que compram 1 livro por ano», é uma coisa facilmente explicável como o Osvaldo Silvestre compreenderá bem: o mercado de “consumidores” de livros em Portugal é curto. Muito curto. E houve dois movimentos de fragmentação desse mercado que ocorreram quase em simultâneo: primeiro a fragmentação dos clientes das livrarias, sobretudo com a chegada da Fnac em Portugal. Não há maior exemplo que Coimbra. Em dez anos a quantidade de livrarias existentes na cidade duplicou: a saber temos uma FNAC, quatro Bertrand, 3 Almedina, 2 Coimbra Editora, 2 ligadas à 111, às quais acrescem outras como: Interlivro, Quarteto, e outras menos relevantes ou direccionadas para clientes especiais como a Cultura e Fé. Há clientes para todas elas? Pelos vistos há… mas reduz em muito a liquidez do mercado livreiro para investir em stock. Eu sei que em outras cidades não houve este boom. Mas não estará muito longe. Fragmentação 1 – Livros 0. Outro fenómeno tem a ver com a quantidade de livros publicada em Portugal. De um momento para o outro, a oferta explodiu. Explodiu para coisas más e para coisas boas. No ensaio por exemplo, temos muito mais editoras a publicar muito bons ensaios. De repente, aqueles 70 a 80 leitores que compram muitos livros por ano, já não são suficientes para comprarem tudo, pois só assim quer editores quer livreiros poderiam fazer um investimento claro em stocks diferenciados.
Isto leva-me ao problema central de qualquer discussão sobre o mercado livreiro. Será irrelevante qualquer discussão se não se perceber que não se criam leitores em Portugal. E este é um problema grave. Duma população em que por razões históricas não predominava uma educação em larga escala, temos toda uma geração que não lê, ou quando lê não lê bem (e fora das grandes cidades é maioritária). Das outras gerações, das mais novas, daquelas que já cresceram em liberdade, tenho muitas dúvidas que, pelos métodos de ensino e pelo laxismo universitário, venham a ser ou sejam, na sua maioria, bons leitores (e por isso compradores). Já tive oportunidade de, em sessão pública o dizer a muitos professores universitários: não estão a fazer o trabalho deles bem. Aí se muda um país. Ou não… Podemos ver jovens estudantes que passam quatro, cinco anos na universidade apenas a ler apontamentos, alguns o desplante das fotocópias, mas mais: sem o mínimo sinal de perceberem que serem bons naquilo que estudam implica, necessariamente, ler e muito de outras coisas. Um dos exemplos flagrantes, um que agora conheço melhor, é o caso dos ditos jurístas. Os alunos de direito, por exemplo, gastam fortunas a comprar os livros dos seus professores, que muitas vezes não trazem nada de novo, e não compram, não lêem mais nada.
As generalizações são sempre dificeis e a maior parte das vezes absurdas. Mas na maioria penso que o cenário é este que descrevi. Leitores precisam-se com urgência. Não para que o mercado livreiro e editorial cresçam mas porque são essenciais para as mudanças de mentalidades. É certo que ler não muda tudo. Mas ajuda um bom bocado.
Para já é isso. Talvez volte ao assunto…

1 Resposta to “entre livros, editores, livrarias e leitores. um comentário a um post de Osvaldo Silvestre”