Parece que o tema “livrarias” está activo. Como me interessa deixo mais dois comentários:
João Villalobos, no Corta-Fitas: «Ao ler esta mensagem e ao contrário de ti, caríssimo João, apercebi-me de que não tenho uma única boa recordação da Buchholz. O ar de pedantismo intelectual daquelas senhoras sempre me enervou, desde a primeira vez em que lá entrei à procura do Quarteto de Alexandria e me foi respondido que comprasse a edição original, como se a tradução não fosse excelente ou quem lesse em português um cidadão de 2ª classe; O esperar meses a fio por um livro que a Amazon me entregaria em três dias (como aconteceu não há muito tempo com oMemories, Dreams, Reflexions de Jung) tirou-me do sério em várias ocasiões até desistir finalmente de ali fazer encomendas. E finalmente os preços, com aqueles câmbios livreiros tão bizarros quanto o preço de um barril de petróleo. Tudo isto afugentava-me a cada visita. Tens contudo razão numa coisa: O «nosso universo cultural» de que fala a mensagem mudou, alargou e animou. Hoje, as FNACs, Byblos, Bertrands e Bulhosas, ou mesmo livrarias “alternativas” como a Ler Devagar e a Eterno Retorno em Braço de Prata, sabem que é imprescindível alimentar os seus livros com ”vida”: Espectáculos, apresentações, tertúlias…A Buchholz não o fez e deixou-se ficar, depince-nez aristocraticamente colocado, recebendo os seus visitantes em pose de bibliotecária mal disposta. Agora, se for à falência, a culpa é só dela. Dos leitores como tu e eu não é com certeza.»
Eduardo Pitta, no Da Literatura: «O meu amigo João Villalobos quer saber o que penso da decadência da Buchholz. Meu caro João, o que penso da decadência da Buchholz está vazado num post de 1 de Fevereiro de 2005, que já não está em linha, porque o coligi no meu livroIntriga em Família (Quasi, 2007, pp. 21-22). Não seja por isso. Aqui vai a transcrição:
É frequente ouvir dizer que hoje se vendem livros com a mesma displicência com que se vendem bicas. Por vezes o juízo é verdadeiro. Mas, como sempre, a escolha é nossa. Eu deixei de comprar na Buchholz porque quase nunca encontrava o que queria, e quando encontrava era atendido com sobranceria. Mais: como as prateleiras estavam sempre cheias de pó, era preciso ir lavar as mãos ao café da esquina. O facto de a livraria fechar cedo (18:00h) também não ajuda. O prestígio de outros tempos, fundado no stock de livros estrangeiros e numa carteira de clientes «importantes», deixou de fazer sentido com a queda da ditadura e o fim da censura. A sociedade democratizou-se, o espectro de leitores tornou-se interclassista, os horários adaptaram-se ao quotidiano, Lisboa dispõe hoje de livrarias modernas, algumas organizadas em redes de lojas (Bulhosa, Almedina, Bertrand, Ponto de Encontro, etc.), a Fnac trouxe diversidade, sofisticação e pessoal competente, os hipermercados tornaram o livro acessível aos não-consumidores de literatura, e o comércio electrónico fez o resto. Neste cenário, é difícil aceitar uma livraria estribada nos piores tiques do país dos doutores. Dois exemplos. Um dia, não encontrando nas prateleiras, perguntei porThe English Auden. Poems, Essays and Dramatic Writings 1927-1939, de W. H. Auden, obra editada por Edward Mendelson (London: Faber and Faber, 1977). Resposta peremptória: «Esse livro não existe.» Isto dito sem um minuto de reflexão, com impaciência e maus modos. Mandei vir pela Amazon. Outra vez estava interessado no número do Magazine Littéraire que traz um dossier dedicado a Oscar Wilde. A minha empregada chegou a casa sem a revista e indignada com o tratamento de que fora alvo. Eu sei que ela não tem a elegância da Capucine, mas um cliente não se mede por sinais exteriores depedigree. Estes incidentes têm alguns anos, mas ilustram bem o «espírito» da casa. Não admira que se tenha chegado ao anúncio da ex-futura falência. Ainda agora, uma consulta rápida ao site da livraria, permite concluir pela inexistência de obras recentes de inúmeros autores. Assim não é fácil. Oxalá os novos proprietários sejam capazes de dar a volta por cima. Vai ser preciso partir do zero.
Fora esse texto, referi a Buchholz mais três ou quatro vezes, uma delas aqui. Para ser franco, não tenho nada a acrescentar ou alterar.»
