07
Set
08

Ler os outros: Buchholz por Francisco José Viegas

No seu Origem das Espécies, Francisco José Viegas comenta a livraria Buchholz que acaba por ser uma recordação de um tempo e também uma reflexão para o futuro:

«O João Villalobos pede uma opinião sobre a Buchholz. Não era a minha livraria – mas era uma das livrarias onde me sentia bem, rodeado daquela desordem injusta, malévola e preconceituosa. Era uma livraria classista. Fui maltratado muitas vezes, mal atendido, enxotado da secção de filosofia ou de linguística (as únicas que eu procurava), deixado sem resposta («não sei» ou «deve estar por aí»), vigiado porque não vestia como os clientes da Buchholz se deviam vestir ou não usava os cheques que os bons clientes usavam. Era uma livraria de outro tempo, onde se atendiam os senhores doutores, e isso irritava-me; e não se prezavam os frequentadores que não entravam na lista dos happy few com cara de unhappy few, geralmente figuras públicas temidas por um estudante universitário com sotaque de Trás-os-Montes que ia à livraria amedrontado. Se não se fazia parte do círculo, não se era bem tratado. Um dia, um professor perguntou-me, a meio das escadas: «Ah, você já vem à Buchholz? Mas olhe que isto é uma casa séria…» Eu não tinha dinheiro para os livros que eu gostaria de ter comprado na Buchholz, e andava pelos alfarrabistas e bancas de segunda mão. A Buchholz é de outro tempo e de outra década e de outros compradores de livros. Lamento o seu fim, mas não passo daí; lamento que as livrarias como a Buchholz terminem para dar lugar apenas a cadeias de livrarias onde os livros são elementos num terminal de computador; e, por isso, acho que as livrarias independentes são fundamentais, mesmo que não tenham a parafernália que seduz os clientes das cadeias de livrarias. Por duas vezes, uma senhora (cujo nome ouvi pronunciado com reverência) tirou-me livros da mão e disse que estavam reservados (não estavam, porque os encontrei lá na semana seguinte). Mais tarde, consegui ter a simpatia de uma das funcionárias da livraria, e tive ajuda para procurar livros ou, até, para falar um pouco de livros propriamente ditos. Mas suspeito que foi um acto de pura clandestinidade. No seu tempo de viragem, a Buchholz devia ter aberto as suas portas até à meia-noite, e devia valer-se do seu fundo, que era enorme. Não percebo nada de gestão, mas parece-me que se tratou de indiferença em relação ao mercado e aos novos leitores e seus hábitos. No fundo, um leitor procura lugares como aquele era ainda, na década de oitenta. Não fui muitas vezes lá, depois disso. Tenho alguns velhos marcadores de livros da Buchholz; guardo-os para me lembrar desse tempo e de como tinha dificuldade em juntar dinheiro para comprar aquele livro que estava na montra, e que acabava por não comprar porque chegava sempre tarde. No fundo, a Buchholz lembra-me aquele tempo. Mas aquele tempo passou e não pode ser vivido daquela maneira.»


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