Como qualquer bom (lol) aluno português encorajei em mim uma espécie de fobia pelos autores obrigatórios. De facto, enquanto os estudava li muito pouco autores portugueses. Eça, por exemplo, era o meu exemplo preferido: como conseguir tirar óptimas notas sem nunca ter posto olhos num único texto de Eça? E, acreditem, era possível… demasiado possível. (Mais tarde tive a possibilidade de ter nas minhas mãos, de mexer, de ler e reler um manuscrito do mesmo Eça. O papel. A maneira como o cortava. A caligrafia. As revisões. As notas. O texto. O deciframento do texto. Experiências únicas…)
Dos livros que eram obrigatórios lembro-me de ler dois: um, livrou-me das entediantes aulas de introdução ao direito. Numa edição de bolso muito antiga e muito bonita. Capa dura. Não a tenho aqui e não me lembro de quem era a edição.
O outro livro foi O amor de perdição do Camilo. Para dizer a verdade não me deixou grande marca. Fiquei-me pela leitura. Nada de mais.
Mais tarde, numa daquelas decisões inesperadas, peguei no Camilo outra vez, naquela célebre colecção do Anibal Pinto de Castro editada pelo Círculo de Leitores. Aí… foi amor à segunda leitura. Tínhamos em casa não sei quantos volumes dessa colecção. Foram todos de seguida. O Portugal que ele me contava era muito próximo do que eu conhecia. Esse Portugal interior onde tudo é faca e alguidar, não necessariamente por esta ordem.
Lembrei-me destas coisas porque nestas últimas insónias peguei no novo livro que a Alma Azul editou. Precisamente O cego de Landim. Uma edição de bolso, que se lê de uma penada, que nos mostra a riqueza de um texto em português. Nos dias que correm parece que escrevemos com muito menos vocabulário, e quantas vezes com palavras fora do sítio. Quando vejo a maneira como se escreve humor em português comparado com alguns grandes textos britânicos (Monty Python por exemplo, ou Fry & Laurie) sinto que há algo que nos escapa. Que há algo que não aproveitamos da nossa língua.
Se uma língua mostra o mundo que vivemos, então, tenho pena de o dizer, o português está a tornar-se uma língua de um mundo já meio morto. Já não escrevemos tão bem como escreviamos há um século atrás. Certo que temos menos tempo. Mas não deixa de ser certo, também, que temos menos competência, e isto num mundo que acha a competência como um dos valores essenciais para vencer no mundo…
Contradições… que até um cego consegue ver.

(agradeço à minha amiga Elsa Ligeiro a oferta deste livro)